Pesquisa do instituto TheInfoPro sobre o uso que empresas do ranking Fortune 1000 fazem de ofertas de armazenamento em nuvens públicas conclui que muitas delas não usam, nunca usaram e nem pretendem usar soluções no modelo cloud computing. Nada menos que 86% descartaram qualquer plano de usar armazenamento como serviço, enquanto somente 10% indica essa intenção.

O resultado é bem claro. E contrasta com outra pesquisa recente, da Cedexis, que avaliou um conjunto de aplicativos empresariais e percebeu que, longe de evitar a computação em nuvem, 35% das aplicações em uso hoje tem algum tipo de contato com os serviços web da Amazon, por exemplo. O dado surpreende e especulou-se, na apresentação da pesquisa, que a maioria desses softwares acessa justamente o sistema de software da Amazon.

Como compreender dois resultados tão diferentes em duas pesquisas com uma base de usuários similar? Há algumas razões óbvias:

1 – Talvez elas não sejam tão similares. Enquanto as duas pesquisas descrevem sua amostra como grandes empresas, elas podem ter diferentes interpretações do que é uma grande empresa.

2 – Talvez as amostras sejam enviesadas. É normal que alguns institutos se relacionem mais com corporações com as quais estejam mais bem relacionadas, gerando resultados tendenciosos.

3 – Talvez elas tenham falado com diferentes tipos de pessoas. A TheInfoPro deve ter abordado gerentes de armazenamento e infraestrutura, que não gostam da nuvem, enquanto a Cedexis pode ter falado com especialistas em software. Em outras palavras, as amostras podem pegar grupos de pessoas em papéis totalmente diferentes nas organizações.

Provavelmente a última explicação seja a mais verdadeira. O que remete às discussões sobre software livre na década passada.

O software de código aberto foi razão de muitas conversas embaraçosas entre gerentes seniores de TI. Durante uma discussão sobre os benefícios do software livre, um CIO ou um alto executivo de tecnologia diria enfaticamente a política da empresa era a de nunca usar código aberto, embora, numa ronda rápida entre os departamentos, fosse comum encontrar pessoas da área técnica usando código aberto para uma série de situações. Dentre eles:

– Facilidade de aquisição: componentes de código aberto eram facilmente baixados da internet, sem a necessidade de confrontar pessoas de vendas ou áreas de compras não-cooperativas.

– Melhores funcionalidades: software de código aberto frequentemente se mostravam mais ricos em funções e com mais qualidade, com mais alternativas empacotadas. E, em qualquer caso, ter acesso à  última versão não demandava negociações longas para uma licença de atualização.

– Baixo custo: Muitos desenvolvedores costumam explicar que foram forçados a mudar para código aberto por conta de prazos apertados e restrições de orçamento. O código aberto permitiu que equipes fizessem seu trabalho com muito menos custos sem que nenhum dos chefes soubessem exatamente como era possível atingir equilíbrios orçamentários.

O resultado era claro: executivos de TI sem saber exatamente as práticas de seus funcionários, dentro de sua própria organização. Um famoso exemplo é o ex-CEO da Sun, John Schwartz. Ele teve contatos com um CIO que garantiu que o MySQL não era usado em sua organização. No entanto, a Sun percebeu, mais tarde, 1300 downloads da linguagem por parte de pessoas com o e-mail da mesma organização.

Dadas as características da computação em nuvem, é bem claro que o mesmo fenômeno se repete com a tecnologia, no caso do uso de aplicações e softwares. E isso é a explicação mais plausível para a dissonância entre as duas pesquisa mencionadas no início desse artigo.

Assim como aconteceu com o código aberto, também na computação em nuvem o baixo custo e a facilidade de acesso encorajam a adoção por desenvolvedores, e até mesmo por usuários finais, com pouco conhecimento e nenhum controle do gestor de TI.

As implicações desses fatos são as seguintes:

1 – Aplicações são implantadas rapidamente, mas com elementos que entram em conflito com as políticas de TI oficiais da companhia. Alguns chamam isso de “sombra da TI”.

2 – No que diz respeito à governança, o comprometimento de regulação e conformidade é óbvio. Como é possível se manter compliance e gerir riscos quando não se sabe exatamente o que o pessoal técnico faz para atingir os resultados?

3 – O valor da TI para os negócios aumenta. É fácil apontar o dedo para a adoção indiscriminada de tecnologias, mas é inegável que, com essas práticas, os desenvolvedores conseguem desenvolver mais rápido e entregar resultados para os negócios mais rápido. O tempo que o pessoal gasta com questões comerciais, procurement, entre outras burocracias, cria custos imediatos e adia muito o valor da TI para os negócios. A adoção de nuvem por parte de desenvolvedores reverte essa equação.

Colocar essa situação como pura decisão do desenvolvedor, aliás, pinta um quadro de engenharia corporativa fora do controle que se recusa a seguir as regras. Mas não se deve esquecer que os engenheiros respondem a demandas advindas das áreas de negócios, baseadas em pressão competitiva do mercado ou de tempo.

Uma diferença interessante entre código aberto e computação em nuvem se apresenta: o código aberto nunca obteve muita atenção dos altos gestores de tecnologia, apesar da promessa de redução de custos. No entanto, os líderes estão altamente envolvidos com computação em nuvem.

Por que duas reações tão diferentes para oportunidades tão similares?

Aqui vão algumas razões em potencial:

– Computação em nuvem ataca um problema centralizado. Componentes de software estão espalhados em várias aplicações, então o dinheiro se dispersa entre vários orçamentos, assim as economias não são óbvias. Por outro lado, hardware reside em um lugar e o orçamento e o tamanho da questão é bem claro, gerando muito mais atenção.

– Departamentos de TI estão acostumadas a mudar hardware e infraestrutura, enquanto querem tocar nas aplicações o mínimo possível, somente quando absolutamente necessário. O ciclo rápido de atualização de hardware proporciona mais confiança sobre a aplicabilidade da nuvem.

– Computação em nuvem parece ser uma questão mais simples e fácil. Reescrever aplicações é dolorido e nenhum fornecedor de software encoraja um departamento de TI a mudar para um novo componente. Na verdade, eles sempre destacam como é difícil trocar componentes. Os fornecedores de hardware e software, por sua vez, estão ansiosos para que seus clientes mudem para a nuvem porque isso requer uma nova rodada de investimentos. O argumento é de que a mudança para a nuvem é extremamente simples. A veracidade desse argumento ainda está para ser comprovada.

Portanto, a motivação para que os desenvolvedores adotem a computação em nuvem parece ser muito similar à que causa a adoção de código aberto. E parece bem plausível que um retorno semelhante ocorra: após anos de políticas oficiais que proibiam o uso de código aberto, notou-se um grande crescimento no uso de ferramentas com essas características, até que elas passaram a dominar a forma como os sistemas eram desenvolvidos.

Tentar controlar um tsunami é inútil. E é bom que os líderes comecem a observar isso agora.

*Bernard Golden é CEO da empersa de consultoria HyperStratus, especializada em virtualização, computação em nuvem e questões relacionadas. Ele também é autor de best-sellers da área, como o “Virtualization for dummies” (ainda sem tradução para o português).